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4 de dezembro de 2012

Casamento e Família Família luzes e sombras

O Capítulo Ordinário Nacional da OFS, realizado em Brasília de 24 a 26 de agosto de 2012, determinou que o tema da família fosse uma das prioridades do triênio 2012-2015. Assim lemos no Documento Final:

Evangelização da Família

Tendo em vista as profundas transformações sociais, culturais, religiosas pelas quais passam as famílias, e porque o XIII Capítulo Geral da OFS escolheu como uma de duas prioridades a “família”, queremos priorizar a Evangelização da Família neste triênio. Estratégias: publicação de temas na revista “Paz e Bem” para estudo e reflexão; elaborar subsídios para os Regionais, para que consagrem um ano de estudos sobre a família, com temas como: Luzes e sombras sobre a família; a construção do casal; o sacramento do matrimônio; Igreja doméstica; princípios para a educação; viúvos, doentes e casos especiais, uma família franciscana e outros.

Pensamento de abertura

Somos marcados pelo olhar profético que nos lançaram em pequenos, como a maldição ou a bênção das fadas nos contos infantis. Os dramáticos ou trágicos personagens que inventei em meus romances foram frutos de famílias particularmente doentes onde imperavam o desamor, a hipocrisia e o isolamento. Às vezes eram inibidos pela impossibilidade de manifestar afetos – que murchavam sem serem exercidos. Se viver sozinho já é duro, viver em família pode ser onerado e oneroso. Sofremos com a precariedade dos laços amorosos. Sofremos com a falta de dinheiro e de tempo. Sofremos com a necessidade de suprir cada vez mais os mandatos do consumo. Sofremos com o pouco espaço para o diálogo, ternura, solidariedade dentro da própria casa. Principalmente não temos tempo ou disponibilidade para o natural exercício da alegria do afeto (Lya Lutf, in Perdas e Ganhos, Record, p.25)

1. A família é um assunto “quente” em nossos dias. Apesar de todas as profecias anunciando sua extinção, a experiência mostra que sua sobrevivência está garantida. Ela continua sendo a célula fundamental da sociedade e, no plano da fé, a Igreja doméstica. Realidade viva, ela está sujeita às transformações sociais, históricas, religiosas e culturais. Xavier Lacroix, leigo francês, na Introdução de uma de suas obras sobre o tema, escreve: “Como vai a família? Sociologicamente falando de maneira muito contrastante.
De um lado nossos contemporâneos continuam atribuindo muito valor aos laços familiares: a família é dos primeiros lugares de solidariedade, os laços entre as gerações permanecem, as refeições em torno da mesa permanecem imagens chaves da felicidade. De outro lado, no entanto, os laços se desfazem, frequentes as rupturas conjugais e com elas a ausência dos dois genitores, do pai e da mãe. As famílias se dispersam, se decompõem e se recompõem.

A família é percebida mais como uma nebulosa de relacionamentos afetivos do que como princípio de estabilidade, de uma forma definida, em uma palavra, uma instituição” (Xavier Lacroix, De la chair et de la parole. Fonder la famille, Bayard, Paris 2007, p. 9). Não se duvida de sua importância. A questão é sempre esta: como construir um casamento e uma família com sólidos fundamentos? Por aí vai o sentido dessa prioridade da OFS em termos internacionais e em nosso caso da OFS do Brasil. Queremos fortalecer nossas famílias e preparar os franciscanos para agirem na pastoral familiar. Temos o desejo de que um bom número de casados ingressem em nossa família secular.

2. Diga-se logo: a OFS não é feita primordialmente para o casal ou para a família. É escola de santidade para todos indistintamente. É sempre, no entanto, enriquecedor para os irmãos e para a Fraternidade quando alguns casais ingressam na Ordem. Na busca da santidade franciscana, muitos irmãos e irmãs casados não contam com a ajuda do parceiro(a). Há mesmo cônjuges que apenas toleram a pertença do outro a um grupo como o da OFS, sem apoiar. Bom seria se marido e mulher pudessem crescer juntos conjugal e franciscanamente. Normal e urgente que os franciscanos seculares reflitam sobre as transformações da família para serem casais mais santos e melhores educadores de seus filhos. Os franciscanos, seguidores do Evangelho, haverão de evangelizar o mundo através do testemunho de um casamento belo e simples, feito de alegria e de cores franciscanas. Será de bom alvitre que nossas Fraternidades sejam lugar de encontro dos membros de nossas e de outras famílias. As reuniões festivas precisarão ter a presença de filhos, netos, parentes. Elas deverão ser espaços onde as famílias possam se sentir à vontade, como se fosse sua pátria…

3. Quando queremos refletir sobre o tema da família, convém ter diante dos olhos aquilo que a Regra fala a respeito do tema: “Em sua família vivam o espírito franciscano da paz, da fidelidade e de respeito à vida, esforçando-se por fazer dela um sinal de um mundo já renovado em Cristo. Os esposos, em particular, vivendo as graças do matrimônio, testemunhem no mundo, o amor de Cristo por sua Igreja. Mediante uma educação cristã simples e aberta de seus filhos, atentos à vocação de cada um, caminhem alegremente com eles em seu itinerário humano e espiritual” ( n. 17). Precisamos agora nos deter nas luzes e sombras que incidem sobre a realidade do casal e da família.

4. Considerações gerais: João Paulo II escreveu uma frase que vai atravessando os tempos: “O futuro da humanidade passa pela família”. A família é a primeira célula da sociedade, berço da humanidade, escola de humanismo e Igreja doméstica. Trata-se de um pano de fundo de nossas existências. Nascemos, crescemos no seio de uma família que deixamos para constituir uma nova família. Realidade em constante transformação, muda de cores como um camaleão. Uma coisa é a família somente com o casal, outra nos primeiros anos de casamento com a chegada dos filhos, com os filhos adolescentes, com os pais (avós) com saúde ou sem saúde, depois das bodas de ouro de casamento. Deixamos nossa família, constituímos uma outra. De alguma forma continuamos ligados à família de origem. Entramos em contato também com a família de origem de nosso cônjuge. Um emaranhado de relacionamentos! Família de gente jovem, de idosos, ou de idosos bem doentes, família que administra os nascimentos e a morte. Família no batizado dos novos e no sepultamento dos idosos. Espaço onde, as mais das vezes, fazemos nossa primeira experiência de fé e de descoberta de Jesus. Há um momento em que as asas estão fortes e os filhos precisam aprender a voar, a deixar o ninho para darem sua colaboração mais direta na construção do mundo. Somos marcados por nossas experiências familiares, sejam elas positivas ou traumáticas.

5. Luzes: Não podemos canonizar todos os modelos de família do passado. Nem sempre as pessoas se sentiam amadas e promovidas. Muitas vezes ouvia-se a esta frase: “família é apenas bom para fotografia”, ou então, “família é uma camisa de força”.

● Sabemos que a mulher nem sempre foi respeitada e colocada em seu devido lugar: hoje vemos mulheres se realizando conjugal, maternalmente e profissionalmente. Acontecia, por vezes, como que um ditatorialismo por parte do marido, não por má vontade mas porque era assim… O trabalho profissional da mulher vai colocar outros problemas. A família é menos discriminatória. Hoje, notamos o homem procurando sua nova identidade no seio do casal e da famílias. As tarefas domésticas são divididas mais equitativamente. Com as separações, os homens aprendem a ser pais e mães.

● Hoje, os filhos contam. Antigamente eram colocados no mundo e pronto. Por vezes, eram educados com muito rigor e corrigidos com surras. Hoje contam demais. Os pais evitam traumatizá-los, fazem o impossível para que estudem, para que sejam bem-sucedidos. Procura-se respeitar a criança e fazer com que suas riquezas sejam descobertas e levadas em consideração. Talvez demais. Com o medo de traumatizar os filhos, não são preparados para o negativo da vida. São criados molemente.

● Tem-se a impressão de que a família está em estado de construção. Há mais conversa no sentido de se discutir a relação. Movimentos de espiritualidade conjugal fazem com que casais aprendam a construir a conjugalidade. A família é hoje, deveria ser hoje, terra de diálogo e de compreensão. Muitas vezes o é.

● Pode-se dizer que a tentativa da transmissão da fé aos filhos se faz com menos imposições e esquemas de “religiosidade” e mais na linha de uma proposta que respeita a liberdade. Há famílias que conseguem ser famílias cristãs onde se respira o Evangelho.

● Num mundo massificado e marcado pela comunicação mais ou menos impessoal, a família foi se tornando mais do que nunca um lugar de afetividade.

● “As famílias de hoje reúnem pessoas de uma individualidade muito marcante que não concebem o casamento como no passado. A família nascida desses casamentos, baseados na autonomia de cada um, na igualdade dos sexos e no equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe, é uma família mais frágil, por natureza, mas cujas relações são também mais profundas” (Ser família na Igreja e no mundo, Equipes de Nossa Senhora, Vozes, 1993, p. 16). 17 6. Sombras : Há muitos motivos de preocupações no tocante à família. Há sombras e regiões obscuras que nos levam a pensar.

● Resultados de pesquisas sérias apontam para um grande numero de famílias constituídas apenas pela mãe e o filho (ou os filhos). Normalmente, a criança só pode nascer quando um homem e uma mulher se unem a partir de uma profundo bem-querer. Os filhos são fruto desse amor superabundante. Os filhos só podem nascer e crescer sob o olhar do pai e da mãe.

● Lembramos a questão da “produção independente” e do aborto como grandes sombras.

● Preocupa o fato de que muitos rapazes e moças, na realidade adolescentes, vivam experiências de intimidade sexual muito precocemente desvinculando o verdadeiro amor da prática da sexualidade. 

● Não é normal que os casamentos durem tão pouco tempo. Há casais que não dão tempo ao tempo, não esperam brotar as riquezas escondidas no parceiro e na parceira. Imaturamente se unem, imaturamente se separam, imaturamente se recasam.

● Há ainda muita violência na família: violência física contra os mais fracos, falta de respeito à dignidade do outro, violência até mesmo porque não se educam os filhos e nem lhes é proposta a fé para a esta possam livremente aderir.

● Devido a diferentes razões, de modo particular ao trabalho excessivo dos esposos e estudo e atividades dos filhos, não há presença de vida a vida. Não há encontros regulares entre os membros de uma família. Os contatos se fazem pelo celular e pelo correio eletrônico. Não se come juntos, não se reza juntos, não se nutre o espírito de família.

● Alguns casais não sabem construir sua conjugalidade. Vivem juntos. Aos poucos, porque o amor não foi alimentado, se tornam estranhos uns aos outros. As relações íntimas são feitas meio eroticamente, espacejadas e não são realmente expressão de um bem-querer que abarque a vida. Há necessidade de se cuidar de uma harmonia sexual.

● Os pais não estão preparando seus filhos para voarem com as próprias asas. Meninas e rapazes, já homens feitos, exercendo a profissão, mas morando em casa dos pais, mantendo relacionamento com parceiros sem casamento. Os pais “torcem” para que os filhos se casem mais tarde. Há esses homens e mulheres que passam a viver juntos sem casamento ou com casamento a partir dos 35 anos e excluem os filhos.

● Não podemos deixar de mencionar a delicadíssima situação dos casamentos e da prole em certas camadas mais pobres e sem formação humana. São colocados filhos no mundo e estes vivem ao deus dará. Numa casa, a mulher reúne filhos de mais de um parceiro. Muitos desses meninos e meninas, bem cedo, entram no mundo da contravenção, do roubo, do crime. As estatísticas dizem que são assassinados um grande número de rapazes com menos de trinta anos.

● Vivemos um tempo com uma cultura marcada pelo individualismo, hedonismo, pelo prazer, cultura do provisório, do consumismo. Toda essa mentalidade é contrária ao casamento e à família. O grande desafio que é colocado diante dos pais é precisamente este: educar para o amor e a solidariedade, para a vida familiar de doação num conjunto de todos esses desvalores.

● Entre as sombras não podemos deixar de lembrar que os pais, primeiros catequistas dos filhos, têm a mente crivada de dúvidas e de inseguranças. Acreditam mal. Não conseguem transmitir. Não sabem o que é uma Igreja doméstica. A insegurança dos pais na educação e na formação cristã dos filhos é notória. 

● As pessoas vivem “antenadas”. Não querem pensar. Música, celular, internet… agitação interna e externa. Ninguém visita seu interior. Tudo é feito por fazer, para ganhar dinheiro, para ter lucro, para aproveitar a vida. As pessoas crescem sem terem adquirido uma certa maturidade. Tudo é barulho. Barulho em casa, barulho nas celebrações, barulho que dopa e tonteiam as pessoas. Não podemos nos deixar educar pela televisão. Precisamos pensar, discernir, escolher.

Concluindo sem concluir Eis alguns aspectos da vida do casal e da família com luzes e com sombras. São apenas alguns. Importante ver as coisas com lucidez. A partir de uma visão realista podemos construir o novo. Nada de saudosismo, de querer refazer uma família do passado. Nada de adotar as fantasias de hoje. Será preciso criar o novo e, nós, cristãos, empenhar-nos-emos em evangelizar a família, sem pieguice: criar o casal, educar de maneira nova, rever nosso modo de viver a fé, construir uma família franciscana.

Textos para a reflexão

1. “Antigamente a família corria o perigo de anular a personalidade individual para preservar o bem da entidade familiar. Nos nossos dias, a família enfrenta o perigo do individualismo. Jurídica e economicamente, o indivíduo é mais privilegiado que a família. Os meios de comunicação exaltam o herói solitário. Os valores oferecidos são individuais (criatividade, profissionalismo, etc ) ou então universais (pacifismo, ecologia etc.). As biografias dos grandes homens raramente mostram, de maneira clara, que toda realização pessoal tem seu ponto de partida num fato familiar. Hoje, após termos cantado os louvores do individualismo para libertar o homem do jugo dos laços sociais, este mesmo homem está arriscado a se ver fechado numa prisão ainda mais insuportável: a solidão” (Ser família…op.cit, p. 17).

2. “Conheci a educação pelo terror que imperava antigamente (antes que os conhecimentos de psicologia nos ensinassem a sermos menos cruéis) até em famílias estruturadas e funcionais: Se você engolir as sementes, essa noite vai nascer uma árvore na sua barriga; se você mentir seu nariz vai crescer e vem polícia cortar com uma tesoura enorme; se você comer fruta sem lavar, vai ficar com a barriga cheia de vermes horríveis… Hoje caímos no outro extremo.

Pais atônitos com a invasão do psicologismo fácil e nem sempre consistente receiam impor limites aos filhos para que não fiquem traumatizados. Pais inseguros ou desinformados levam os filhos aos mais variados especialistas para tratamento nem sempre necessários e oportunos. Sei de pais que procuram a emergência de um hospital para que as enfermeiras cortem as unhas de um bebê, ou meçam a temperatura simplesmente “hoje eu achei ele meio quentinho” (…).

A psicologia ajuda a entender e aliviar a personalidade. Assim, a escola, a creche, o jardim de infância não são lar nem família, as professoras não são mães e tias, e não se deveriam incumbir esses terceiros, por mais dignos e respeitáveis que sejam, dos deveres do nosso coração.

Que deveres são esses?
Abrir um espaço de ternura no cotidiano apressado e difícil, eventualmente cruel. Deixar aberta a porta do diálogos não convencionais, com hora marcada, mas no fluxo habitual do interesse e do carinho. Amor em família é uma arte, um malabarismo, por vezes um heroísmo.
Essencial como o ar que respirarmos”

( Lya Luft, Perdas e Ganhos, op.cit, p. 46-47).
Fonte de pesquisa: Frei Almir Ribeiro Guimarães , site Franciscanos.org.br 

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